“Memórias de 1969”

17/03/2021 0 Por admin
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Esquecemos com alguma facilidade que antes do 25 de Abril nada era vedado à polícia. Ninguém estava a salvo de Pides e outras forças de repressão que, acredito eu, não se olvidam os que a viveram e não se acreditam os que , volvidos alguns anos, nem imaginavam fosse possível. Valem para isso os mais velhos e informados que lá tentam contar umas façanhas que lhes demonstrem por A+B ser certo e inquestionável o que haviam vivenciado. Falta, falta sempre, saber se quem escuta acredita no que não viu.

Uma RGA ( Reunião Geral de Alunos ), numa tarde que se presumia ser de aulas mas não o foi. Essas reuniões demoravam invariavelmente mais que o aprazado.

Nas escadarias que conduzem ao primeiro piso e ao Salão Nobre, junta-se a malta toda.

Uns ouvem, outros escutam e outros ainda olham de longe sem saber se as aulas se realizam ou se a tarde vai chegar para todos os pontos em debate,

Alguém junto às majestosas portas de entrada daquele edifício lindo, grita: POLÍCIA !

E era mesmo.

Como diria um colega meu “ mais Polícias do que gente” !

Ei-los que entram sem para as aulas haverem sido convocados, quanto mais para a RGA…!

Sem perguntas nem tempo, foi tempo de tirar do cinto os cassetetes e, aos magotes, começarem a dar bordoadas a torto e a direito. Tudo embrulhado, gente caída e a gritar uns impropérios condizentes com toda a meiguice dos “agentes”. Foi mau. Foi duro. Foi injusto, mas foi também quase histórico a estória de um professor que tentava descer a escadaria e protegido pela pasta que cobria a cabeça gritava para a polícia “ Calma, Calma…Eu sou Assistente ( Professor Assistente de qualquer cadeira )!

O polícia de bastão em punho não se deu ao trabalho se esclarecer, só lhe disse assim :

“ Ai é assistente, está a assistir, então tome !” E vai de empunhar o bastão e com toda a força “cascar” no pobre do professor que não tinha entendido que a polícia era chamada para bater  não para debater quem era aluno ou professor.

Era assim que os alunos viam as suas instalações invadidas pela polícia sem que para tal fosse necessário nada mais do que uma Reunião Geral.

Um dia vou tentar não esquecer esta ocorrência para que daí se venha a discutir o que nós vivenciamos e a diferença para a actualidade.

Ah, esquecia-me de salientar aqui que na tal sala em anfiteatro que encimava a escadaria, tínhamos aulas teóricas de algumas cadeiras. Nas últimas filas onde eu tomava assento lia-se no tampo de um  dos muitos lugares, gravado, sei lá como, a seguinte frase que lembro com uma ponta nostalgia e sorriso : “ Estavas tão tétrica e meditabunda…que eu medi-te a bunda com uma fita métrica”. Grande poeta é o povo !